terça-feira, 16 de novembro de 2010

A mulher, a menina e o dublê

Publicado originalmente no site
Crônica do Dia, em  18/11/09


Era uma vez uma mulher com a cabeça bagunçada de tantos pensamentos, cobrando-se atitudes, concentração, a prática de tomar decisões e responder mensagens, desatolar os projetos em pauta, exorcizar algumas culpas e por aí vai. Ontem, de tão cansada, essa mulher, ao chegar em casa, tomou um banho e se deitou na tentativa de dormir e parar esse barulho todo na cabeça. Não deu certo.

A mulher, ouriçada com essa ansiedade que não sabe de onde vem, recorreu ao controle remoto e ativou sua amiga noturna: a televisão. Quem sabe um seriadinho curto e alegrinho, bobinho, daqueles para arejar, não a ajudaria a cair no sono.

Fato é que essa mulher, que tem dias de doida de pedra, meus amigos, como ontem, não estava preparada para um filme que encontrou na televisão, depois de um tempão zapeando. Mas quem disse que há realmente como nos prepararmos para as sensações que são surpresas? Ou mesmo para as que já sabemos quando chegarão, devido às circunstâncias com data e hora marcadas? Bobagem essa de pensar que é possível controlar os espasmos emocionais... Ao menos para quem ainda se emociona.

Essa mulher meio sem noção, morrendo de vontade de participar de algum programa de sonoterapia pra ver se consegue dormir uma noite e descansar, colocou o controle remoto de lado, mas porque se encantou de cara pela menininha do filme, que estava no comecinho. Aquele sorriso, o jeitinho de quem sabe de tudo e mais um pouco.

A mulher não gosta de assistir filmes dramáticos que envolvam crianças. Pensa que adulto colhendo consequências é natural, mas criança não. Um amigo dela disse que isso também é consequência da vida das crianças, cortarem um dobrado, sabe? Mas nem sempre dessa... Talvez seja apenas o restinho de conta que têm de pagar dos débitos de outras vidas. E entre a vida em riste e a espiritualidade, a mulher escolhe pensar que essas crianças que sofrem o diabo, e nem sempre nos filmes, são mais fortes do que ela é capaz de imaginar.

As primeiras cenas desse filme a fizeram lembrar de outro, um daqueles que, vira e mexe, ela aluga para assistir de novo. A Cela (The Cell/2000) é dos que a inquietam, mas ao mesmo tempo enche seus olhos de fascinação pelas imagens e de inquietação pela trama. Ela não sabe o título do filme que assiste, afinal ele é um acidente na rotina dela, mas depois, junto ao Santo Google, ela descobre o motivo de pensar no outro filme: o mesmo diretor, o indiano Tarsem Singh, quem sabe imbuir a realidade com a fantasia sem torná-la incômoda, frouxa.

Enganou-se a mulher sobre aquele ser um filme leve, dos que fazem dormir. Minutos depois de ela sintonizar o canal, apareceu o Lee Pace, ator que ela admira muito, e então ela ficou mais animada. Lembrou-se dele naquele seriado muito bacana: Pushing Daisies.


O santo Google lhe contaria também, depois de assistir ao filme, que o título dele é The Fall, mediocremente batizado no Brasil como Dublê de Anjo (2006 | Tarsem Singh). Tudo bem que a trama fala sobre dois pacientes de um hospital, o dublê, Roy Walker (Lee Pace) que, depois de viver uma perda muito das sofridas, empenha-se em se tornar um suicida, e essa menina que adora ouvir histórias fantásticas, uma fofa (desculpem, mas a mulher não conseguiu se segurar e, ao assistir uma das cenas, disse baixinho: que fofa essa menina!), mas Dublê de Anjo dói no coração.


Catinca Untaru, que vive a menina Alexandria, nasceu na România, e desde muito pequena, cultivou um profundo interesse pelo fantástico e pelas lendas, tornando-se uma contadora de história convincente, o que é claro na sua participação em The Fall. Aos quatro anos começou a fazer aulas de inglês e o seu sotaque é uma das delícias desse filme. O ritmo da contadora de histórias menina é de uma graça que dá vontade de entrar nesse sonho ou trazê-lo para a nossa realidade. A mulher doida-varrida concorda com tudo isso.


Enquanto Alexandria se encanta com a história de bandidos e mocinhos que Roy lhe conta - e que aparece na telinha sendo protagonizada por eles mesmos –, e ele aproxima do seu encontro com a morte, ambos criam um universo de cores, medos, sutilezas, capaz de encher os olhos dos mais durões de lágrimas.


A mulher assistia ao filme, mas não conseguia se libertar dos pensamentos de antes. A alma ficou condoída por Alexandria e Roy, mas também por si mesma. E a mágica estava lá: os personagens na televisão e ela quase lá, ao lado deles.

O que mais fascinou a bagunçadinha da mulher em The Fall foi que, apesar das cenas tão comuns aos blockbusters sobre reis, conquistadores, tiranos, bruxos e por aí vai, trata-se de uma criança lidando com um adulto suicida... O filme é tenso, apesar de todo colorido, e dolorido, mas também catártico e gracioso. E deu um nó na alma dela que, mais tarde, migrou para a garganta.

Dramas com crianças a deixam emocionalmente exausta. Mas assim como outro filme que lhe veio à mente, O Labirinto do Fauno (El laberinto del fauno/2006 | Guillermo del Toro), a beleza da história contada em The Fall e a sutileza e talento de seus protagonistas, enchem de vida o que seria o túmulo da coragem de se sentir feliz, sempre que possível, apesar de todos os infortúnios. Desalento não desabona a alegria.


Quem estiver com mente e coração disponíveis a embarcar numa jornada de lágrimas e belíssimos sorrisos, pode fazer como essa mulher fez: pegar na mão de Alexandria e na de Roy e seguir adiante.



A mulher continua meio ensandecida, mas depois de ontem, percebe com mais clareza que tudo o que precisamos para compreender que a vida vai mais adiante do que podemos imaginar é de bons contadores de histórias.

E passei por aqui para contar a história de uma mulher que precisava muito dormir, mas acordou. Os olhos voltados para a fantasia que se embrenha na nossa realidade.

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